segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Por Que Admiram Lampião?


Imaginem a seguinte cena: um homem armado e chefiando um bando invade uma casa sertaneja e busca por comida. A dona da casa, paupérrima e viúva, diz não ter o que lhe oferecer para enganar o estômago. Tomado por uma fúria repentina, o homem espanca a senhora e, em seguida, vira-se para o seu filho, que assite a tudo aterrorizado, despe-lhe das vestimentas e enfia o seu pênis numa gaveta de armário, fechando-a em seguida e a trancando com chave. Ateia fogo à casa. Desesperado e agonizante, o rapaz é obrigado a mutilar o órgão genital para escapar com vida.
Sabem quem foi o responsável por tamanha humanidade? Virgulino Ferreira, o Lampião, hoje um ídolo nacional. Conheço uma legião de fãs desse facínora. Esse relato se encontra no livro ''A Derradeira Gesta: Lampião e Nazarenos guerreando no sertão'', da antropóloga alagoana Luitgarde Cavalcanti. A própria família da pesquisadora foi vítima de Lampião em Santana do Ipanema, Alagoas. Lampião saqueou sua propriedade e, num gesto incomum, mandou trancar as moças da família, enclausurando-as e ordenando que ninguém mexesse com a mãe e as tias da pesquisadora. Porque ele fez isso? Por que não as estuprou? Luitgarde atribui essa ação ao racismo do bandoleiro. Explico: a família descende de holandeses, com pele clara, olhos azuis, estatura acima da média para aqueles lugares e tempos. Isso parece ter influenciado Lampião, preservando-as da mente psicopata do ''Rei do Cangaço''. O fino trato e a boa aparência podem ter-lhes salvado as vidas.
Luitgarde dedicou-se durante 20 anos a investigar o cangaço. Para ela, a mitificação de Lampião é um erro a ser corrigido. Diz ela: ''Ele só conseguiu permanecer 22 anos praticando atrocidades porque servia à classe dominate. Suas ações provocaram um êxodo que refez o latifúndio no sertão. Enquanto vivo, Lampião nunca foi mitificado, idolatrado pelo povo. Até 1960, nenhum cordel o defendia ou dizia que ele teria ido ao céu. Ele sempre aparecia no inferno para o povo dos 7 estados em que atuou''. E isso é verdade. Tanto que o coronel Lucena Maranhão, que matou o pai de Lampião e depois chefiou a sua caçada e morte em Sergipe, entrou para a história alagoana como benfeitor público. Então, quem tornou Lampião num herói? A pesquisadora revela: todos aqueles que se beneficiaram do cangaço, ora. Os irmãos Melchiades e Ezequias da Rocha, que descendiam de coiteiros (pessoas que davam amparo aos cangaceiros), e eram jornalista e político, respectivamente, preferiam ter parentes ligados a um herói, não a um bandido. Daí, a partir de 1940, começaram uma cruzada para limpar a ficha de Lampião. Fazendo isso, estariam também limpando a história de suas famílias. Surgiu daí a versão de que Lampião representava um ideal de justiça social, numa época nefasta e numa terra sem leis, dominada pela corrupção e pelos coronéis. Além disso, Lampião caiu feito luva na ideologia comunista, como um ''herói camponês, lutando contra a opressão''. Os comunas da Internacional Comunista até chegaram a tentar cooptá-lo como guerrilheiro. Esse pessoal nunca dorme em serviço. Nos anos 1960, quando veio a ditadura e a esquerda precisava de símbolos para a sua luta, já não haviam dúvidas sobre quem era herói e quem era vilão no embate entre cangaceiros e polícia corrupta. Também a liberdade poética de cordelistas ajudou a formar o ideário de bom bandido. Daí ficou fácil: grupos influentes, comunistas aproveitadores e cordelistas contribuíram muito para tornar Lampião no que é hoje: admirado por grande número de pessoas, principalmente no Nordeste. Criaram o produto perfeito para propagandear como símbolo. Dessa forma, passaram uma borracha em suas atrocidades e criaram-lhe uma aura de combatente glorioso contra o sistema. Lampião não foi isso. Ao contrário, era um mercenário que sabia muito bem aproveitar-se das situações. Sua ficha criminal daria um livro espesso. Durante 22 anos, ele e seu bando arrasaram vilas e propriedades, estupraram mulheres, castraram rapazes, enterraram gente viva, cortaram cabeças e sangraram pessoas no meio das ruas de muitas cidades de 7 estados nordestinos. Também marcaram muitos rostos de moças com ferro quente, punindo-as por usar roupas inadequadas. Era um jagunço que trabalhava para o terror, patrocinado por grupos que lhe usaram para se livrar de desafetos. Além da seca, o terror imposto por Lampião ajudou a aumentar as migrações nordestinas para o sudeste no início do século XX. Outra parte que Luitgarde abomina em seus escritos é ouvir dizer que Lampião entrou para o cangaço por terem lhe matado o pai. Segundo a pesquisadora, isso não passa de uma grande lorota. Lampião entrou para o cangaço com o pai ainda vivo, em 1916. O seu pai só veio a morrer cinco anos depois. Não passa de um escudo para amenizar os seus atos. Eis mais um mito que cai.

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